A Batalha em Busca de Poder
Competitividade é a marca da sociedade
atual. Num mundo globalizado, dinheiro e reconhecimento estimulam cada
vez mais a obsessão das pessoas. Pressionados por uma cultura
superficial e materialista, rendemo-nos ao consumo exagerado que nos
promete uma falsa e ilusória felicidade. Não percebemos,
mas gastamos boa parte do nosso dinheiro em produtos supérfluos.
Trabalhamos demais para sustentar um estilo de vida desnecessário.
O desperdício é um dos subprodutos da sedução
ao consumo.
Nunca a humanidade foi capaz de fabricar tantos produtos para o nosso
conforto. Mas nunca as pessoas estiveram tão perdidas sobre o
que fazer com este conforto. Ao invés de usufruirmos dos bens
materiais, somos seus escravos. Ao invés de utilizarmos os recursos
disponíveis para uma vida melhor, nos desgastamos para acumular
tais recursos. É a armadilha da vida urbana: quanto mais compramos,
mais desejamos, embora quanto mais obtemos, menos nos satisfazemos.
A compulsão é tão automática que metas materiais
passam a ser mais importantes que metas pessoais. Trocamos o ser pelo
ter, qualidade de vida por quantidade de bens. E, nesta ânsia
de ganhar ainda mais, tornamos as pessoas nossos adversários.
É a disputa entre quem terá mais, quem será mais
capaz. É a batalha em busca de poder.
Não quero dizer que competir não seja importante. Competir
faz parte da vida. É uma forma de superar limites, desenvolver
os próprios potenciais. Competir é uma maneira de aprender
a enfrentar desafios, um incentivo para o autocrescimento. Mas, inadvertidamente,
nos distanciamos do que realmente queremos.
Ao invés de competir como forma de desenvolvimento, as pessoas
se tornam rivais. Ao invés de realizarem o melhor de si, desejam
ser as melhores. Ao invés de superarem seus limites, enfatizam
suas próprias qualidades. Não buscam um resultado em comum,
tornam-se demasiadamente egoístas. Num ciclo infinito rumo ao
sucesso e reconhecimento, fecham-se para os próprios princípios,
isolam-se em um ambiente frio e hostil.
Na verdade, a batalha que realmente vale a pena é o próprio
desenvolvimento pessoal. O verdadeiro compromisso é com a construção
de uma vida coerente com aquilo que somos. A competição
é interna. O desafio está na superação dos
próprios limites.
É claro que as conquistas materiais também têm a
sua importância. São instrumentos modernos que facilitam
nossas vidas e por isso devem ser valorizados. Mas não podemos
ser seus escravos, nos seduzindo pelas nossas próprias criações.
Afinal, competir apenas para consumir é uma forma egoísta
de existir. Nosso mérito pessoal não pode ser medido apenas
pelos aplausos de uma platéia. Ninguém nasce apenas para
se exibir. Conforto e bem-estar material só trazem felicidade
e prazer de verdade quando estamos em paz e serenos com nossa própria
consciência.
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Publicado no "Estado de Minas", 19/03/2000 - http://www.castellani.psc.br
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